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  • Elisabete Castelon

Depressão não é simplesmente a tristeza



O sofrimento, a tristeza, o medo e a insatisfação são parte da condição humana. Todos nós temos momentos de frustração, de desânimo, crises de choro e de mau humor. Isso tudo não é depressão. A depressão é um estado demorado, pesado e profundo. A pessoa deprimida pode relatar uma tristeza esmagadora, mas também raiva, mágoa, culpa ou medo do futuro, preocupações contínuas, ou sensação de vazio e alienação, como se não pertencesse mais a esta vida, ou tivesse perdido a capacidade de sentir. A forma de perceber o mundo fica alterada. Este parece hostil, traiçoeiro e perigoso. Pequenas críticas são causa de grande ofensa. O paciente muitas vezes se enxerga como inferior, inadequado e insuficiente. Não se trata aqui de enxergar os próprios defeitos, mas de se sentir muito mal na própria pele.

Os pensamentos podem se restringir a conteúdos negativos do passado (injustiças, perdas e decepções sofridas), ou do futuro (catástrofes iminentes), que ficam se repetindo em uma trama sem resolução. Aos poucos vai sendo sedimentada a crença de que não há reparação, não há saída, não há esperança.

O isolamento é procurado, pois a pessoa deprimida se sente sozinha e incompreendida na sua vivência. Ela não consegue compartilhar com os demais as pequenas alegrias e prazeres do cotidiano, como festas, encontros, ou hobbies. Essas atividades lhe parecem distantes e sem sentido. Ademais, frequentemente o deprimido tem muito cansaço e falta de energia. É como se fosse atado a uma pedra de chumbo. Tudo se torna muito exaustivo, até mesmo a higiene pessoal e os cuidados básicos com a casa podem ficar inviáveis.

A depressão comprovadamente altera o funcionamento geral do corpo e aumenta o risco para várias doenças. O sono pode ser excessivo, ou reduzido e entrecortado. Alguns pacientes despertam pela madrugada e não adormecem mais. Este despertar precoce é comumente acompanhado de muita angústia, configurando a pior fase do dia. Alguns deprimidos têm perda de apetite e de peso, outros comem compulsivamente. A dor está intimamente associada à depressão, compartilhando com ela várias áreas de percepção do sistema nervoso. Doenças inflamatórias, autoimunes, alérgicas, mas também doenças metabólicas, como o diabetes e até mesmo o câncer sofrem influência da depressão. Existe assim uma área de pesquisa denominada psiconeuroendocrinoimunologia que busca destrinchar as vias que interligam os diferentes sistemas do nosso organismo. De acordo com as neurociências, a divisão do homem em corpo e mente é mais didática que real, pois os mesmos órgãos (por exemplo, cérebro, suprarrenais, intestino) e as mesmas moléculas (por exemplo, serotonina, dopamina, noradrenalina, citocina, insulina, citocinas) atuam coordenando tanto o nosso comportamento, as nossas emoções, como o nosso metabolismo, crescimento e resposta de defesa imune.

Por tudo que foi exposto acima, fica claro que a depressão vai muito além de uma tristeza passageira. Não se sabe porque a sua frequência tem aumentado tanto nos nossos tempos. Alguns argumentam que esse aumento é falso e na realidade reflete a impaciência e incapacidade de lidar com frustração do homem moderno. Por isso qualquer decepção gera desespero em uma geração que acredita que a vida seja feita para realizar sonhos e ser degustada. De fato, tenho também a impressão de que essa ilusão hedonista é vendida nas mídias e contribui para um despreparo psicológico diante do sofrimento. Também vejo uma intolerância social com a melancolia, uma vez que se espera de todos nós que estejamos continuamente bem humorados, energizados, bonitos, atentos e em alto desempenho. Todavia essas considerações são muito superficiais e insuficientes para explicar o fenômeno do aumento dessa experiência tão avassaladora que é a depressão. Pessoalmente, o que eu vejo como causas sociais são a solidão, a fraqueza dos vínculos, o preconceito (de raça, de cor, de corpo, de classe social, de gênero, de orientação sexual, etc.), as ameaças constantes de uma sociedade altamente competitiva e injusta e o excesso de informações a serem processadas. Também o menor contato com a natureza, a menor quantidade de movimento e de sol, o predomínio de alimentos processados, os agrotóxicos, a poluição _ dentre outros elementos que caracterizam as sociedades urbanizadas_, merecem ser estudados em sua associação com a depressão.

Fato é que uma pessoa deprimida precisa de ajuda, e de ajuda urgente. É preciso ter os olhos e os ouvidos bem abertos, observando atentamente crianças, idosos, homens bem sucedidos, mulheres bonitas, pois todos em todas as idades podem ter depressão. E ela pode ser fatal. Não tente ajudar com conselhos banais, nem com lições de moral. Apoie, conforte e procure ajuda profissional.

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