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  • Elisabete Castelon

O que dirão da nossa época os nossos sucessores daqui a 200 anos?



O que dirão da nossa época os nossos sucessores daqui a 200 anos? Como nosso século será visto à distância? É certo que vivemos grandes avanços tecnológicos. É certo que temos mais conforto e mais possibilidades de ação, como viagens, alcance de conhecimento, mobilidade social, expressão sexual. Por outro lado, é certo também que vivemos um período de antecipação dolorosa, maus presságios e ameaças em toda parte: catástrofes ambientais, terceira guerra mundial iminente, migrações em massa, nações sendo destruídas, terrorismo, crises econômicas, oscilações do mercado internacional, tráfico, violência urbana. Tudo é capturado por câmaras distribuídas em toda parte, tudo é colocado nas redes sociais, muitas informações, contínuas, alucinantes.

Sim, a nossa época é alucinante e caótica. O sentimento dominante é o medo. Nunca o homem sentiu tão claramente a transitoriedade dos fatos, a instabilidade das situações e dos vínculos, a incerteza da sua posição no mundo.

Há também várias contradições que marcam este século: vários processos de trabalho se tornaram mais rápidos e substituíram a mão-de obra humana, mas nunca tivemos menos tempo e tanta pressa. Há sofisticados mecanismos de segurança nas casas, nas lojas, nas ruas, em todo lugar, mas nunca nos sentimos tão vulneráveis à violência. Há fontes de informação em todo canto, tudo está acessível online e, no entanto, nos sentimos desinformados, sem conhecimento suficiente, mesmo em nossas áreas de atuação. A tecnologia permitiu um aumento gigantesco na produtividade agrícola, porém a fome no mundo aumentou.



Um dos resultados desta situação se reflete no perfil de adoecimento das pessoas. A depressão e a ansiedade nas suas variações, como ataques de pânico, insônia, fobias, mas também a obesidade, a hipertensão, o diabetes, as doenças inflamatórias, as alergias são exemplos de males da nossa civilização, todos de algum modo relacionados ao stress. Sim, de fato, o stress altera o metabolismo em todo o corpo, colocando-nos num estado de alarme contínuo. Sempre preparados para reagir, para mudar o que for necessário à nossa sobrevivência. Assim acumulamos mais tecido adiposo, sentimos mais fome, procuramos alimentos mais calóricos, não “desligamos” nunca. Chegamos ao ponto de precisar de substâncias que nos acalmem, nos possibilitem dormir e nos tirem o pavor e a angústia. O stress também altera os nossos mecanismos de defesa imunológica, fazendo com que agentes inofensivos sejam interpretados como ameaça (alergias, asma), ou mesmo que elementos constitucionais do corpo deixem de ser reconhecidos como próprios (doenças autoimunes, como artrite reumatoide e lúpus). O stress também prejudica a função de vigília do sistema imune, aumentando o risco de infecções e até do desenvolvimento de células cancerígenas.

Talvez a maior contradição do homem do século XXI esteja na disparidade entre o seu progresso tecnológico e a sua imaturidade psicológica, a incapacidade de auto-controle diante de situações difíceis. O fato é que, ao longo dos últimos 10.000 anos, o cérebro humano praticamente não mudou, porém o número e a complexidade de informações que ele deve manipular aumentou mais que exponencialmente! Montamos um circo tão estrambótico que nos confundimos e nos esgotamos dentro dele.

Em meio a esta sobrecarga neurobiológica- cognitiva e emocional- surgem globalmente vários movimentos que propõem um caminho diferente: a arquitetura ecológica, a agricultura orgânica familiar, a valorização da arte e dos saberes regionais, o vegetarianismo, enfim, a busca da simplicidade e da autenticidade, a busca por produtos mais humanos e menos “plastificados”, a busca de uma forma de vida que aproxime as pessoas e se integre mais à natureza. Neste contexto, emergem as filosofias orientais no Ocidente, dentre elas o Yoga. Na verdade, Yoga não é a realização de movimentos lentos acompanhados de respiração rítmica. Yoga é uma forma de vida que vai pouco a pouco reabrindo a via de conexão com o nosso corpo e a nossa mente. A interiorização e o silêncio vão desenvolvendo em nós capacidades esquecidas que nos ajudam a nos estabilizar. Aprendemos a permanecer em repouso ainda que em movimento. Não ficamos tão vulneráveis às oscilações ao nosso redor, realizamos nossas escolhas de acordo com os nossos sinais internos, não reagimos aos estímulos, às provocações e às ameaças o tempo todo. Encontramos algo em nós que simplesmente é e que permanece sempre. Por isso, não há perigo. A mente se acalma e se fortalece. Esta é a meta.

Ainda que o caminho seja longo, ele já é em si mesmo benéfico, ou seja, embora o alcance da estabilidade mental exija longos anos, a incorporação do Yoga nas nossas vidas já nos leva a uma outra dimensão. A perspectiva sobre a realidade cotidiana vai se modificando à medida que o foco se dirige para os processos interiores do corpo e da mente. Esta mudança também leva a uma reconexão com elementos da natureza e ao respeito pela mesma como parte da manifestação divina: a terra, as diversas formas da água, os ciclos da lua, o sol, o vento, as árvores, os animais deixam de ser fonte de recursos e matéria-prima e passam a ser nosso deleite.

O medo, que nos predispõe a reações violentas- atos, palavras e até mesmo pensamentos carregados de agressividade-, cede espaço à satisfação- uma sensação de harmonia e de segurança interior. Isto não é resignação e passividade. Isto é agir com reflexão, tomar as atitudes justas e não ficar apreensivo pelos seus resultados. A saúde é promovida de várias formas: mais atenção aos sinais do corpo, mais atenção ao que se come, ao que se diz, ao que se pensa, maior valorização do tempo como oportunidade de serenidade e paz e não apenas como algo que deve ser aproveitado de forma otimizada.

A prática do Yoga não tem idade e não tem contraindicações. Mesmo quando realizada em grupo, é uma prática individualizada, posturas são adaptadas para a condição física de cada um.



O Yoga já vem sendo inserido em escolas, que sabidamente constituem ambientes muito difíceis, pois refletem em lentes de aumento todos os problemas sociais, como hiperestimulação, sobrecarga, ansiedade, exclusão, insegurança, violência. Aqui as repercussões da prática do Yoga são impressionantes, justamente por ser a infância um período de formação, no qual tudo é assimilado de forma mais intensa e mais rápida. Ocorre melhora da concentração, do aprendizado, redução da ansiedade e principalmente reluz a esperança de que com isso estamos contribuindo para que o homem de daqui a duzentos anos esteja bem e possa nos olhar com misericórdia e, quem sabe, gratidão.

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